Haitiano de 9 anos ensina português a novos imigrantes e fala de adaptação em Chapecó

Louis chegou em 2015 no Brasil e diz que demorou dois meses para se adaptar ao novo idioma. Foto: Isadora Stentzler/

Louis é um dos 24 alunos da professora Rita Grasieli Dalastra, que dá aulas no 4º ano da EBM Jardim do Lago. Foto: Isadora Stentzler/VOZ

No Brasil desde 2015 e único da família a falar português, Louis Sarnen Mitrov aprendeu o idioma na escola e por dois meses deu aulas à comunidade haitiana no bairro Efapi. Apaixonado pelo Brasil, ele conta as diferenças culturais e sonha em ser jogador da Chapecoense

No pátio da Escola Básica Municipal (EBM) Jardim do Lago, no Bairro Efapi, Louis Sarnen Mitrov brincava com outros seis amigos de “o chão é lava”, correndo de um lado para o outro, subindo em mesas de concreto e se agarrando em árvores. O dia era atípico na escola, que ontem sediava os jogos interescolares e oferecia pasteis, balas e refrigerantes aos estudantes no intervalo. Entre eles, Louis, de nove anos, ria. Ele é um dos quatro estudantes haitianos matriculados no Ensino Fundamental da unidade e apesar de estar apenas há dois anos no Brasil, engana o tempo no país pelo português dito à perfeição e pelo sonho comum entre garotos da sua idade que amam futebol. “Quero ser jogador da Chapecoense”, vibra.

Louis não lembra bem os motivos que o trouxeram para cá. Sabe que quatro anos após o terremoto (“algo com muita água”, definido nas suas simples palavras), seu pai, Jean Ricot Louis, mudou-se para o Brasil. Ele e a mãe, Ypsie Metelis, o acompanharam só no ano seguinte, em 2015, radicando-se em Chapecó.

Tão logo chegou, Louis foi matriculado na EBM Jardim do Lago, de onde mora há duas quadras. Sem a afinidade da família com o português, foi na sala de aula que ele, na época com sete anos, teve o primeiro contato com a língua local.

Ele lembra das primeiras aulas. “Teve um dia que eu queria ir ao banheiro. Mas eu não sabia como dizia banheiro. Então falei em inglês e a professora entendeu. Mas outras vezes ela fazia gestos pra que eu entendesse melhor”, conta. As dificuldades e o estranhamento foram contornadas pela paciência da primeira professora que também fazia desenhos, tornando sua adaptação rápida e menos traumatizante. Segundo ele, foram precisos dois meses na escola, de tarefas em dobro feitas por ele em casa – e de iniciativa própria – mais ajuda de um tio que dominava a língua local, para tratar com fluência o novo idioma – que se somou ao francês, crioulo e inglês já falados pelo estudante.

A professora Rita Grasieli Dalastra, que o acompanha neste ano, disse que ficou preocupada quando soube do desafio de dar aula a um imigrante. “Será que ele sabe português?”, perguntava-se antes de entrar em sala. Mas ao conhecer Louis e seu esforço em se adaptar ao novo local, surpreendeu-se com a rápida aprendizagem e sua interação com os colegas.

Diferenças

De uma cultura educacional diferente, Louis fala como “gente grande” do que pensava que seria a escola no Brasil. No Haiti, lembra, a pressão educacional a base de ameaças, o fizeram por vezes apanhar de professores. Ele levanta-se da cadeira de onde está sentado, afasta a carteira e exibe os joelhos ralados. “Isso foi de se ajoelhar na brita”, diz, sem expressar tristeza ou rancor pelas punições que recebia na escola. Não uma vez, Louis disse que apanhou em sala pelas cobranças da aprendizagem.

Em um país onde ainda é permitido que os professores apliquem castigos em alunos por mal comportamento ou para que se dediquem mais, o estudante de nove anos conta que apanhava pelo adiantamento em Matemática. “Meu pai é professor e sabe muito matemática. Ele me ensinava e como os outros alunos estavam atrás e eu muito na frente, tive que ficar quase uma hora na brita”.

O impacto de conhecer um Brasil onde as escolas são livres de punições o fez também olhar de outra forma aos educandos: gente de quem sentia medo, hoje diz sentir respeito.

De aluno a professor

A nova ótica sobre uma profissão necessária também o fizeram, com nove anos, a se tornar um deles.

Um dia, Louis conta, brincou com seu pai dizendo que ele precisava ir sozinho até a escola. Sem dominar o português e utilizando apenas um aplicativo de celular para entender as palavras chaves, seu pai hesitou, mas logo percebeu a traquinagem do filho. Dessa conversa, surgiu a ideia vinda de sua mãe de que o pequeno começasse a ensinar português aos haitianos. Com uma vasta comunidade radicada no bairro Efapi, Louis aceitou a proposta e por dois meses, aos sábados à tarde, segundas e terças pela manhã, passou a ensinar português em uma sala de aula adaptada em um galpão próximo de casa.

“Eu acho que dava aula para todos haitianos que estão em Chapecó”, diz ingênuo, sem saber contar quantas pessoas participavam das suas aulas. “Mas era um monte mesmo e consegui ajudar muitos deles a falar português”.

Depois de dois meses, e por cansaço, Louis parou as aulas, mas não nega que um dia possa voltar a dá-las. Como alguém que precisou de um esforço extra para se adaptar à cidade, ele sabe que outros imigrantes como ele podem precisar do auxílio que ele teve do tio e da professora em classe.

Inclusão

Gestor da EBM Jardim do Lago desde março, Jairo Francisco dos Santos vê no educando um exemplo do como a inclusão para imigrantes é favorável no processo de readaptação. Apesar da escola e o município não terem um programa específico para acolhimento de imigrantes nas unidades, é em sala de aula e pela ética profissional, que Santos diz assistir na prática o impacto positivo do tratamento igualitário.

“Temos percebido que nossas salas estão mais heterogêneas nesse sentido. E quando não excluímos a cultura do outro e permitimos que ele a compartilhe, da mesma forma que está aprendendo a nova, todos ganham”, defende. “Mas é desafiador pensar em um aluno que terá o primeiro contato com a língua na sua sala de aula. Só que enquanto educadores está na nossa formação ética a aceitação e inclusão do outro. E pra mim chega ser um orgulho ter um aluno como o Louis que tanto agrega a nós e a outros estudantes”.

Para a mestre em Educação Sandra de Avila Farias Bordignon, membro da Comissão PROHAITI e autora da tese Inserção dos imigrantes haitianos nos contextos escolares e não escolares no Oeste catarinense, as crianças que aprendem o português acabam fazendo florescer no seu seio familiar a adaptação ao idioma – como no caso de Louis.

Mas apesar disso, ela ainda sente um “despreparo” das instâncias públicas no que diz respeito ao acolhimento dos imigrantes, cabendo aos professores darem conta em sala de aula dessa falta de gestão. “As estratégias são as mais criativas possíveis. Usar tradutor de celular para se comunicar com aluno e pais foi uma que encontrei. Outra foi proporcionar uma roda de conversa onde o imigrante contava do seu país, sua cultura e se permitia aprender um pouco desse universo mesmo que isso não estivesse previsto no conteúdo escolar do momento. Criar material didático para o ensino da língua com desenhos e escrita foi outro. O ensino do idioma pátrio não está previsto no currículo como aquisição de segunda língua então algumas escolas ofereceram isso no contra turno, outras não”, aponta, citando casos que encontrou na sua pesquisa.

Para driblar isso e garantir uma inserção mais rápida, ela acredita que oferecimento de aulas da língua local em espaços públicos e gratuitos oferecidos pela administração local bem como a disponibilização de materiais na língua materna com traduções possam ajudar ao imigrante encontrar na nova casa um espaço mais acolhedor. “E esse intercâmbio cultural é de uma riqueza imensurável”, frisa.

Louis sabe bem disso. Apesar do pouco tempo em Chapecó já é um fã da Chapecoense e após a entrevista foi presenteado pelo gestor Santos que também acabara de conhecer sua história. “Recebemos algumas cortesias, Louis. Você gostaria de assistir o próximo jogo da Chape no Estádio?”. Ao que o estudante vibrou e acenou com um sim – sabendo que será a primeira vez que pisará na Arena na qual um dia quer entrar para defender como jogador.

FONTE: JORNAL VOZ DO OESTE/ REPÓRTER ISADORA STENTZLER

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